Começar um texto falando sobre liberdade é de fato uma tarefa difícil, principalmente se levarmos em consideração o fato de existir variadas concepções bastante pessoais, uma diversidade plurificada de idéias e sugestões. Cada qual defendento sua tese, julgando ser a melhor, ser a verdade única. Cada um que sente confortavelmente no seu balanço de cor favorita e tente voar mais alto, na tentativa de alcançar o céu de certezas, de pseudo certezas. das certezas necessárias e coerentes dentro do seu mundo.
Agora nesse instante minha cabeça fervilha numa mistura de pensamentos e palavras sem sentido, bebo meu forte café e respiro fundo. No momento eu penso na não existência da liberdade, na inexistência da liberdade sem limite ou da inexistência de uma única maneira de libertação. Ora, seria muita prepotência acreditar nisso. Por mais alguns minutos penso e chego até a sentir lamentação para com aquelas pessoas que buscam incessantemente a tal liberdade, 'buscam o ser livre'. Mas isso, de acordo com a inconstância que o ser humano possue pode mudar em dois segundos. Talvez mude apenas por puro comodismo, conformismo ou qualuquer outra coisa que a gente se sinta mais seguro. Afinal, o ser humano tem essa mania chata e um pouco, quase muito, que necessária de se agarrar a coisas, pessoas, palavras para sentir-se tranquilo e protegido. Acho que tudo isso faz parte do que nos torna cada vez mais humanos e muitas vezes unidos por uma idéia não muito fixa, aí é que está. Estamos sempre buscando algo, alguém para continuar a busca daquilo que irá nos confortar de alguma forma em alguma ocasião. E não queremos estar sozinhos. Enfim.
Inventamos mentiras a todo instante, nós caimos nas nossas próprias armadilhas e ciladas
para continuar vivendo, para continuar sorrindo e tentando deixar de lado as perdas. Deixar de lado não, levar conosco todas elas e mais um pouco. Dizem que são com essas perdas que mais ganhamos. Acredite se quiser.
Damos longos passos, giramos dentro de uma ciranda fechada com medo que ela abra em algum momento da dança, afinal, alguém pode trapacear. Mas eu quero ser livre, eu quero poder girar onde me der na telha, em todas as telhas que me conduzir uma bela valsa.
Quero continuar inventando passos e seguindo sozinha meus caminhos tortos, assumindos meus pecados e almejando novos pares e novos ritmos.
Detesto perceber que preciso correr contra o tempo, eu quero correr com o tempo. quero caminhar lado a lado com ele. Quero muito poder sentir que sou livre, mesmo que tudo isso seja mera utopia. Gosto de utopias, gosto do platônico que pode tornar-se real a qualquer instante, quanto menos se espera. Nada na vida é previsível e é disso que mais gosto.
Quando resolvo colocar em jogo a palavra liberdade, dobro a direita, subo, desço, corro, volto, entro na esquerda, leio placas e não chego a lugar algum. Estou tentando apenas achar ou saber o significado maior da existêcia de libertação na mais pura essência. Pra mim, liberdade é um caminho estreito para quem procura e vasto para quem sente nos pequenos momentos de leveza.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
sábado, 21 de novembro de 2009
Você sabe.
Eu gostaria de ter sorrido mais, de ter esbanjado felicidade em estar ao seu lado mais um vez. No entanto não consegui, acabei tirando a indiferença pra dançar.
Lá dentro eu sorria, sorria verdadeiramente, demonstrava algo maior e muito válido apenas pra mim.
- Ah! Se você soubesse. Se você soubesse o quanto poderiámos ser mais...
Do ládo de cá eu respondia apenas aos seus poucos e pequenos gestos. Eu te olhava, você me observava de longe e eu percebia. Eu dançava e queria você como meu par, meu único par.
Você se aproximava, eu esperava, esperava e nada, nada acontecia. Você apenas estava alí e eu só podia mesmo me conformar com sua presença. E eu sorri pra você.
Você sabe que estou cansando. Por favor não deixe!
Lá dentro eu sorria, sorria verdadeiramente, demonstrava algo maior e muito válido apenas pra mim.
- Ah! Se você soubesse. Se você soubesse o quanto poderiámos ser mais...
Do ládo de cá eu respondia apenas aos seus poucos e pequenos gestos. Eu te olhava, você me observava de longe e eu percebia. Eu dançava e queria você como meu par, meu único par.
Você se aproximava, eu esperava, esperava e nada, nada acontecia. Você apenas estava alí e eu só podia mesmo me conformar com sua presença. E eu sorri pra você.
Você sabe que estou cansando. Por favor não deixe!
domingo, 15 de novembro de 2009
Vomitei você
Eu invento minha própria loucura
Visto minha melhor fantasia e mostro os dentes
Eu tento me embreagar dos meus vastos pensamentos sem limite
E esqueço muitas vezes de me impor um fim.
Vou correndo até você de braços abertos
E na hora do calor eu sinto frio e cruzo os braços antes do ato maior, antes de qualquer toque, antes que qualquer suavidade.
Eu me bloqueio e me peço pra me impedir do não impécílio.
Não aguento, sustento, imploro e erro.
Por medo, por dor, por qualquer pequena coisa que pareça grande.
Eu apenas enxergo além, o além que não existe e apenas se comporta na minha mente da forma como invento e engulo, engulo como um forte comprimido amargando minha língua e o céu da minha boca.
Está aqui, está alí.
Com você eu talvez quisesse, talvez pudesse.
Mas não gosto do inseguro por mais insegura que eu possa parecer ser e seja.
Gosto da palavra segura, do abraço que protege e da mão que me puxa.
Gosto do olhar que me impulsiona, do ouvido que me entende e consegue ser mais.
Quem sabe aconteça, quem sabe tudo passe e possamos ultrapassar a linha.
Quem sabe.
Pensei que você soubesse. Pensei errado.
Você é mais fraco que eu, mais confuso e tonto. Seus pensamentos são travados e sua língua não se move em minha direção. Seus pés estão enterrados no chão cravado que você fez questão de jogar em cima, seus braços estão atrelados um no outro por uma corda que seus inúlteis pensamentos assim quiseram fazer e fizeram.
Essa sua grosseria me deixa tonta como uma cana da mais forte que chega a me fazer vomitar de tanto e tão somento de enjoo. enjoo da vida, enjoo de efeito e de tudo, todos.
Por um momento, um breve momento, me deixou sorridente. E foi só eu misturar com a vodka e tudo se manifestou de forma confusa dentro de mim, de tal forma que a ânsia veio, a vontade escapou com o vômito de tudo. E finalmente aconteceu.
Eu te vomitei, te coloquei pra fora de uma vez por todas. Você e toda sua insegurança, você e todo seu medo que supera o meu.
Vomitei você.
Visto minha melhor fantasia e mostro os dentes
Eu tento me embreagar dos meus vastos pensamentos sem limite
E esqueço muitas vezes de me impor um fim.
Vou correndo até você de braços abertos
E na hora do calor eu sinto frio e cruzo os braços antes do ato maior, antes de qualquer toque, antes que qualquer suavidade.
Eu me bloqueio e me peço pra me impedir do não impécílio.
Não aguento, sustento, imploro e erro.
Por medo, por dor, por qualquer pequena coisa que pareça grande.
Eu apenas enxergo além, o além que não existe e apenas se comporta na minha mente da forma como invento e engulo, engulo como um forte comprimido amargando minha língua e o céu da minha boca.
Está aqui, está alí.
Com você eu talvez quisesse, talvez pudesse.
Mas não gosto do inseguro por mais insegura que eu possa parecer ser e seja.
Gosto da palavra segura, do abraço que protege e da mão que me puxa.
Gosto do olhar que me impulsiona, do ouvido que me entende e consegue ser mais.
Quem sabe aconteça, quem sabe tudo passe e possamos ultrapassar a linha.
Quem sabe.
Pensei que você soubesse. Pensei errado.
Você é mais fraco que eu, mais confuso e tonto. Seus pensamentos são travados e sua língua não se move em minha direção. Seus pés estão enterrados no chão cravado que você fez questão de jogar em cima, seus braços estão atrelados um no outro por uma corda que seus inúlteis pensamentos assim quiseram fazer e fizeram.
Essa sua grosseria me deixa tonta como uma cana da mais forte que chega a me fazer vomitar de tanto e tão somento de enjoo. enjoo da vida, enjoo de efeito e de tudo, todos.
Por um momento, um breve momento, me deixou sorridente. E foi só eu misturar com a vodka e tudo se manifestou de forma confusa dentro de mim, de tal forma que a ânsia veio, a vontade escapou com o vômito de tudo. E finalmente aconteceu.
Eu te vomitei, te coloquei pra fora de uma vez por todas. Você e toda sua insegurança, você e todo seu medo que supera o meu.
Vomitei você.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
É.
O topo
O Ápice
A gota d'água.
A voz
O mudo
O ouvinte.
O jeito
A face
O tranparecer e o absorver.
A cara
As mãos
A tapa.
O pé
O chute
Sem existir.
O calor
O abraço
Os corpos em um só sentir.
A pele
Os nervos
O coração a palpitar.
O viver
Ofegante respiação
O suspiro.
O medo
O passo lento
A máscara caiu.
O vento
A pipa, o balão
Meus pensamentos.
A dor
A lágrima
Não sinto.
A vergonha
O constrangimento
O olhar.
As lembranças
Esqueci
Vacilei.
A confusão
O tiroteio
O proteger, a proteção.
A fuga
A paz
A cabeça perdida.
O tormento
Viagem
A volta.
O reencontro
A força
O gostar.
O fuder
O querer
Prazer.
A calma
A cama
Chama.
Pede
Ama
Rápido.
Porque cansa
Espera
Desisto.
O Ápice
A gota d'água.
A voz
O mudo
O ouvinte.
O jeito
A face
O tranparecer e o absorver.
A cara
As mãos
A tapa.
O pé
O chute
Sem existir.
O calor
O abraço
Os corpos em um só sentir.
A pele
Os nervos
O coração a palpitar.
O viver
Ofegante respiação
O suspiro.
O medo
O passo lento
A máscara caiu.
O vento
A pipa, o balão
Meus pensamentos.
A dor
A lágrima
Não sinto.
A vergonha
O constrangimento
O olhar.
As lembranças
Esqueci
Vacilei.
A confusão
O tiroteio
O proteger, a proteção.
A fuga
A paz
A cabeça perdida.
O tormento
Viagem
A volta.
O reencontro
A força
O gostar.
O fuder
O querer
Prazer.
A calma
A cama
Chama.
Pede
Ama
Rápido.
Porque cansa
Espera
Desisto.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
joguei minhas fichas.
Bom...tem horas que a gente resolve jogar a moeda pra cima com a maior força possível e fica esperando que ela caia do lado certo. Eu apostei, joguei e agora tô aguardando ela voltar do céu.
Dedos cruzados!
Dedos cruzados!
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Ontem eu tinha você aqui comigo, hoje olho pros lados e só vejo a cadeira fora do lugar.
Tempo inconstante este que insiste em me seguir.
Tempo inconstante este que insiste em me seguir.
domingo, 16 de agosto de 2009
Abri os olhos e tudo branco.
Dei de vista para um teto muito bem iluminado.
Sentia uma dormência estranha por todo o corpo e minha cabeça latejava horrores, tentava me movimentar mas tudo parecia esforço demais.
Olhei para o lado esquerdo e avistei uma mesa cinza com uma bandeija, uma xícara, uma torrada mordida e um açúcar em miniatura aberta.
Escutei passos leves vindo em minha direção, iam se aproximando.
Que sensação terrível, queria levantar dalí, queria saber quem era, queria saber o que tinha acontecido. Quero.
Uma voz doce sem rosto me acalmou:
- oi? tá tudo bem com você, moça?
- oi! sim, está. Quer dizer, não muito. Quem é?
A voz foi se aproximando e senti uma mãozinha muito pequena e quentinha tocar o meu braço. Logo em seguida o rosto, lá estava. Eu a conhecia de algum lugar, mas não me recordava.
Céus, será havia perdido a memória?
Uma menininha. Percebi que ela estava se esforçando muito para alcançar a altura da cama, mas logo cansou de ficar de ponta de pé e saiu.
- Pra onde você vai?
Não houve resposta e me vi atordoada com toda aquela situação. Não sabia onde estava, o que teria me acontecido e ainda estava sem ninguém. Que desespero.
Me senti mais aliviada quando ela veio voltando com um arrastar de um pequeno banco. Ela voltou e ficou de pé olhando pra mim, sorrindo com a boca e o queixo cheio de açúcar.
Recordei-me! Como pude ter esquecido?
Ela era a menininha do abraço, da proteção. Foi ela que correu naquele dia até você e sentiu o aconchego. Sim, é ela.
O fato é que ela passou a manhã conversando comigo, me fazendo companhia. E no entra e sai de enfermeiras não muito simpáticas fomos trocando histórias, sorrisos e brincadeiras.
Me falou das cores, dos jogos de rua, das bonecas, de meninos e o quanto idiotas ela os achava.
Me falou de você, do seu jeito doce de tratar das coisas mais chatas de uma forma tão simples e calma.
Passou-se algumas horas e você chegou. O frio na barriga foi contagiando meu corpo e eu tentando manter o controle sobre mim mesma, mas estava se tornando cada vez mais difícil.
A menininha abriu o maior sorriso que contagiou o quarto todo. Eu, que estava me sentindo constrangida com a sua presença, sorri.
E lá foi ela mais uma vez até os seus braços.
E agora? Seria a minha vez de correr e encontrar-me no aconchego do seu colo?
Não, não seria.
- Cumpriu sua tarefa direitinho? - sua voz olhando na direção do olhar da pequena.
- Sim, tio. Juro! Pergunte à ela. - apontou aquele dedinho de 8 anos em minha direção. Balancei a cabeça afirmando e você me sorriu.
- Descobriu pra mim? Posso falar com ela? é legal? - coxichou meio alto meio baixo, dando pra chegar até meus ouvidos.
- Pode conversar com ela, ela é boazinha.
- Ela merece uma maçã?
- Merece uma caixa delas.
- Tudo bem então, vou confiar em você. Olhe lá em mocinha! - E fez cócegas na menininha. - Olhe, hoje você vai ficar na casa do vovô e da vó. Já verifiquei se eles estão legais e sabe? disseram que iam te levar no sorvete.
- Eles estão legais mesmo?
- Sim, estão. Mas depois quero que você me conte tudinho, inclusive qual o sabor do sorvete que tomou.
- Não posso ficar com você?
- Prometo voltar mais tarde pra te pegar, mas hoje preciso conversar com esta moça sumida. Dê um beijo nela que vou te lavar, vovô tá esperando lá fora.Não queremos que ele se chatei, não é?
E lá veio ela.
- Tenho que ir moça. vou tomar sorvete, entende?
- Queria que ficasse mais um pouco, mas eu entendo sim.
- Gostei de você!
- Eu também querida! - e ela me deu um abraço, finalizando a conversa.
Sairam os dois de mãos dadas, conversando. Fiquei alí, sozinha e refletindo sobre o que tinha feito desses 8 anos. Tentei dar um jeito no cabelo que mal sabia como estava, tentei me levantar mas fui empedida por uma outra enfermeira.
- O que está fazendo?
- Queria apenas andar um pouco.
- Não pode senhora, ordens médicas. Precisa repousar.
- Como está meu cabelo? E meu rosto?
- Acho que você deveria se preocupar com outras coisas na situação em que você se encontra, não?
- Você não faz a mínima idéia da situação em que me encontro, portanto querida, não se engane com relação a minha vida.
- Sei o suficiente pra saber que não pode descer daí.
Não disse mais nada, apenas pedi perdão mas ela pareceu nem ouvir.
Demorou pouco tempo, acho que uns 15 minutos no máximo, até que a porta abriu novamente. Mais uma vez via você se adentrando naquele quarto frio.
Me ajeitei na cama, passei a mão no cabelo descendo pelo rosto. Sorri.
Você puxou uma cadeira e sentou na minha frente, mas não sorriu.
- Está melhor?
- Sim, estou, obrigada!
- Você sabe o que aconteceu com você?
- Não exatamente, lembro apenas de ter visto você na padaria. Estou sem ideia até de tempo.
- Bom, deveria ter imaginado.
- Como foi? O que foi?
- Você desmaiou, parecia estar se desmontando. Caiu com a bandeja em cima de você, saí correndo, te peguei nos braços. Todo mundo estava em cima e eu tentando afastar os curiosos, quando no fundo eu era o maior deles. Não entendia o que estava acontecendo, não fazia a mínima idéia.
- E agora, você sabe?
- Você está doente. - Sua voz sumiu e uma lágrima correu pelo seu rosto cansado - Você é.
- Sim.
- 8 anos longe, 8 anos.
- Me desculpe! - Não conseguia acreditar, eu finalmente tinha conseguido colocar pra fora, vomitar o meu pedido de perdão à você. - Eu posso explicar, posso tirar todas as suas dúvidas...posso...
- Não, claro que não. Não agora, não assim.
- Eu gostaria muito de sair daqui. Não adianta de nada, não adianta entende? Você me entende?
Não resisti.Comecei a chorar desesperadamente, parecia uma criança.
Fiz você se levantar e vir ao meu encontro. Me perdi em seus braços. Ficamos alí parados, sentindo o calor dos nossos corpos.
O hospital, aquele quarto principalmente, a vida em geral, parecia ter cores mais intensas.
Foi aí que você resolveu desobedecer as ordens médicas, me tirou daquela cama, me ergueu.
Alí estavamos.
Tranquei a porta.
Dei de vista para um teto muito bem iluminado.
Sentia uma dormência estranha por todo o corpo e minha cabeça latejava horrores, tentava me movimentar mas tudo parecia esforço demais.
Olhei para o lado esquerdo e avistei uma mesa cinza com uma bandeija, uma xícara, uma torrada mordida e um açúcar em miniatura aberta.
Escutei passos leves vindo em minha direção, iam se aproximando.
Que sensação terrível, queria levantar dalí, queria saber quem era, queria saber o que tinha acontecido. Quero.
Uma voz doce sem rosto me acalmou:
- oi? tá tudo bem com você, moça?
- oi! sim, está. Quer dizer, não muito. Quem é?
A voz foi se aproximando e senti uma mãozinha muito pequena e quentinha tocar o meu braço. Logo em seguida o rosto, lá estava. Eu a conhecia de algum lugar, mas não me recordava.
Céus, será havia perdido a memória?
Uma menininha. Percebi que ela estava se esforçando muito para alcançar a altura da cama, mas logo cansou de ficar de ponta de pé e saiu.
- Pra onde você vai?
Não houve resposta e me vi atordoada com toda aquela situação. Não sabia onde estava, o que teria me acontecido e ainda estava sem ninguém. Que desespero.
Me senti mais aliviada quando ela veio voltando com um arrastar de um pequeno banco. Ela voltou e ficou de pé olhando pra mim, sorrindo com a boca e o queixo cheio de açúcar.
Recordei-me! Como pude ter esquecido?
Ela era a menininha do abraço, da proteção. Foi ela que correu naquele dia até você e sentiu o aconchego. Sim, é ela.
O fato é que ela passou a manhã conversando comigo, me fazendo companhia. E no entra e sai de enfermeiras não muito simpáticas fomos trocando histórias, sorrisos e brincadeiras.
Me falou das cores, dos jogos de rua, das bonecas, de meninos e o quanto idiotas ela os achava.
Me falou de você, do seu jeito doce de tratar das coisas mais chatas de uma forma tão simples e calma.
Passou-se algumas horas e você chegou. O frio na barriga foi contagiando meu corpo e eu tentando manter o controle sobre mim mesma, mas estava se tornando cada vez mais difícil.
A menininha abriu o maior sorriso que contagiou o quarto todo. Eu, que estava me sentindo constrangida com a sua presença, sorri.
E lá foi ela mais uma vez até os seus braços.
E agora? Seria a minha vez de correr e encontrar-me no aconchego do seu colo?
Não, não seria.
- Cumpriu sua tarefa direitinho? - sua voz olhando na direção do olhar da pequena.
- Sim, tio. Juro! Pergunte à ela. - apontou aquele dedinho de 8 anos em minha direção. Balancei a cabeça afirmando e você me sorriu.
- Descobriu pra mim? Posso falar com ela? é legal? - coxichou meio alto meio baixo, dando pra chegar até meus ouvidos.
- Pode conversar com ela, ela é boazinha.
- Ela merece uma maçã?
- Merece uma caixa delas.
- Tudo bem então, vou confiar em você. Olhe lá em mocinha! - E fez cócegas na menininha. - Olhe, hoje você vai ficar na casa do vovô e da vó. Já verifiquei se eles estão legais e sabe? disseram que iam te levar no sorvete.
- Eles estão legais mesmo?
- Sim, estão. Mas depois quero que você me conte tudinho, inclusive qual o sabor do sorvete que tomou.
- Não posso ficar com você?
- Prometo voltar mais tarde pra te pegar, mas hoje preciso conversar com esta moça sumida. Dê um beijo nela que vou te lavar, vovô tá esperando lá fora.Não queremos que ele se chatei, não é?
E lá veio ela.
- Tenho que ir moça. vou tomar sorvete, entende?
- Queria que ficasse mais um pouco, mas eu entendo sim.
- Gostei de você!
- Eu também querida! - e ela me deu um abraço, finalizando a conversa.
Sairam os dois de mãos dadas, conversando. Fiquei alí, sozinha e refletindo sobre o que tinha feito desses 8 anos. Tentei dar um jeito no cabelo que mal sabia como estava, tentei me levantar mas fui empedida por uma outra enfermeira.
- O que está fazendo?
- Queria apenas andar um pouco.
- Não pode senhora, ordens médicas. Precisa repousar.
- Como está meu cabelo? E meu rosto?
- Acho que você deveria se preocupar com outras coisas na situação em que você se encontra, não?
- Você não faz a mínima idéia da situação em que me encontro, portanto querida, não se engane com relação a minha vida.
- Sei o suficiente pra saber que não pode descer daí.
Não disse mais nada, apenas pedi perdão mas ela pareceu nem ouvir.
Demorou pouco tempo, acho que uns 15 minutos no máximo, até que a porta abriu novamente. Mais uma vez via você se adentrando naquele quarto frio.
Me ajeitei na cama, passei a mão no cabelo descendo pelo rosto. Sorri.
Você puxou uma cadeira e sentou na minha frente, mas não sorriu.
- Está melhor?
- Sim, estou, obrigada!
- Você sabe o que aconteceu com você?
- Não exatamente, lembro apenas de ter visto você na padaria. Estou sem ideia até de tempo.
- Bom, deveria ter imaginado.
- Como foi? O que foi?
- Você desmaiou, parecia estar se desmontando. Caiu com a bandeja em cima de você, saí correndo, te peguei nos braços. Todo mundo estava em cima e eu tentando afastar os curiosos, quando no fundo eu era o maior deles. Não entendia o que estava acontecendo, não fazia a mínima idéia.
- E agora, você sabe?
- Você está doente. - Sua voz sumiu e uma lágrima correu pelo seu rosto cansado - Você é.
- Sim.
- 8 anos longe, 8 anos.
- Me desculpe! - Não conseguia acreditar, eu finalmente tinha conseguido colocar pra fora, vomitar o meu pedido de perdão à você. - Eu posso explicar, posso tirar todas as suas dúvidas...posso...
- Não, claro que não. Não agora, não assim.
- Eu gostaria muito de sair daqui. Não adianta de nada, não adianta entende? Você me entende?
Não resisti.Comecei a chorar desesperadamente, parecia uma criança.
Fiz você se levantar e vir ao meu encontro. Me perdi em seus braços. Ficamos alí parados, sentindo o calor dos nossos corpos.
O hospital, aquele quarto principalmente, a vida em geral, parecia ter cores mais intensas.
Foi aí que você resolveu desobedecer as ordens médicas, me tirou daquela cama, me ergueu.
Alí estavamos.
Tranquei a porta.
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